Grandes colectivos não dão as mãos

Continuo, com entusiasmo, a observar o que se passa mesmo aqui ao lado.
De Espanha se diz que não vem nem bom vento nem bom casamento, mas que os nossos vizinhos sabem o que andam a fazer, pois que sabem!

Tardios na digitalização, abraçaram o assunto com entusiasmo. Sem perfeição, mas também sem excessiva hesitação, o caminho faz-se caminhando e só podemos andar adiante se pusermos um pé à frente do outro.

Dentro de duas semanas vai acontecer uma super conferência, a primeira do género, dedicada ao sector, organizada pela sua associação profissional (nascida no coração da tempestade, em pleno 2020), e com um painel fortíssimo, que inclui alguns nomes internacionais, como a Mindy Weiss (até esta abertura internacional e o desconforto com o inglês foram ultrapassados). O preço é muitíssimo acessível (e ainda usufruímos do desconto do IVA por ser uma transacção intracomunitária), e esperam-nos três dias de discussão sobre um amplo leque de assuntos — já me inscrevi e convido-vos a espreitarem tudo isto.

Há muitos bons exemplos que podemos abraçar neste modelo espanhol, quatro vezes maior que o nosso, e que, embora ainda muito assente numa tradição clássica, tem encontrado linhas de escape muito inspiradoras (tenho visto noivas a casar de calças, com um estilazo de arrasar, sem perder aquela elegância pura que define uma noiva no mais bonito dos dias).

Um dos maiores, e mais valioso, é o companheirismo generoso com que têm feito este caminho para a frente. Sem grande ruído, de forma muito orgânica, quem sabe mais tem estendido a mão a quem sabe menos, o conhecimento circula, quem não sabe pergunta e que sabe responde.

Vemos surgir grupos, projectos, formações, muita dinâmica, um belo mix de jovens e menos jovens e, sobretudo, uma abertura de espírito, uma atitude muito positiva e leve, empurrões gentis, “vai e faz”, “experimenta assim”, “faz assado”, “mais vale feito que perfeito” sem barreiras de estatuto, dimensão ou geografia.

A maior conclusão que tiro e que implemento, é simples: se sabes, diz, se não sabes, pergunta. Estende a mão. Dá.

Esta posição não compromete o meu negócio, não compromete a minha jornada pessoal e objectivos. Não põe em risco o meu conhecimento e experiência, ou o meu talento. Não interfere na minha facturação ou na captação de clientes.
É uma posição menos solitária e a companhia numa viagem longa é algo valioso. E é satisfatório, de forma pessoal e profissional.

Os nossos vizinhos espanhóis não estão à espera que o universo (ou o governo) os salve, decida por eles ou lhes ponha uma solução no prato, neste entretanto pandémico. Dão os seus pequenos passos à frente, são companheiros do seu vizinho do lado e convidam-no para o caminho, com umas tapas pelo meio, com aquele ânimo e alegria que tanto lhes reconhecemos (e talvez invejemos).

Ao contrário da reportagem da TVI que passou há dias, nada disto é como nos filmes, muito menos como os da Disney. Não há heróis de última hora, não são os grandes que nos salvam.
Cada um de nós tem um papel, uma responsabilidade e uma dose de livre arbítrio para distribuir a sua generosidade. Podemos não o fazer, claro, é completamente válido. O facto de ser uma escolha é que tem toda a sua graça.

Levo dez anos (e mais umas temporadas iniciais a fazer convites de casamento) a trabalhar neste sector, tenho um conhecimento diverso e transversal sobre muitos assuntos além da curadoria visual e edição diária de conteúdos, que variam entre criar uma empresa, ser trabalhador independente, contratar (e despedir…) pessoas, lançar tendências, criar uma marca, remodelar sites, registar domínios, mudar de servidores, pôr de pé uma conferência internacional, fazer contratos, refazer contratos, denunciar contratos, encontrar um nicho e ser feliz nesse espaço, descobrir talentos, captar clientes, ter uma voz… é uma imensa lista de experiências que se espelha em conhecimento. Este conhecimento é parte da minha fórmula de sucesso profissional, é parte do produto ou serviço que vendo, mas não é o seu todo. Mais ninguém é igual a mim, esse é o factor diferenciador e singular.

Não vos posso oferecer o que vendo, mas posso contar-vos o que a experiência me ensinou, explicar-vos como tomei aquela decisão, encaminhar-vos para quem sabe coisas, contar-vos como resolvi algo e partilhar um pequeno truque que acabei de descobrir.

Quero perguntar-vos e ouvir-vos sobre as mesmas coisas, e conhecer a vossa experiência. E no fim, quero beber um copo, porque o caminho precisa de pausa e, como dizem os espanhóis, de charlas.

Há poder na força dos números, mas isso fica para as grandes questões.
Para já, precisam de ajuda com alguma coisa?

Imagem de Sarah Ashlyn Creative, via Etsy

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Susana Esteves Pinto

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