A grande indigestão

A temporada de 2022 está a passar o ponto mais alto de inflexão, Outubro porá o termo, para grande alívio colectivo.

Do meu posto de observadora atenta, acompanho o discurso que se tem feito ouvir bem alto esta estação— muito trabalho, sacrifício de equipas e família, múltiplos casamentos no mesmo dia, casamentos seguidos na mesma semana, grandes declarações públicas (?!) de “sangue, suor e lágrimas”, todo um sofrimento e desgaste acima da norma manifestado por floristas, wedding planners, fotógrafos, decoradores, designers de convites…

O que há de diferente este ano, para que este discurso seja tão transversal e tão sonoro?
Será a cauda do backlog pandémico ainda a somar? Serão as nuvens da crise económica e instabilidade a antecipar decisões e sonhos? Será o regresso às estatísticas pré-covid, de que já tínhamos perdido o ritmo? Haverá mais noivos e menos fornecedores?

Qualquer uma destas razões (ou a soma de todas) é real e possível, será necessário esperar pelo fim do ano para olhar para a clareza dos números, que já apontavam um crescimento veloz (ou regresso à normalidade) em 2019, a virar a meta dos 30 mil casamentos anuais, o intervalo onde temos navegado na última década, com a excepção, ainda que muito honrosa, dos 19 mil casamentos de 2020.

É interessante reflectir e analisar o acréscimo de trabalho — se é de facto real ou se está distribuído pelos mesmos, de onde vem, porque vem, é pontual, é uma tendência, há razões específicas que podemos abraçar e apontar a nosso favor para o futuro? É sem dúvida um assunto que merece que atenção estratégica e análise a seu tempo.

Mas é interessante também perceber as razões que levam a aceitar mais do que se pode entregar, nas suas melhores condições — o que está a ser expresso, ainda que de forma inconsciente, pelos próprios.

Nesta observação que faço, decidi chamar à época de 2022 o ano da grande indigestão, porque é a esse excesso que tenho assistido.

Surpreendentemente (para mim), é das equipas mais maduras e experientes que ecoam estas vozes. Não por quem está a começar, sabe pouco e é engolido por aquilo que não soube medir, mas por quem já estava bem implementado no mercado, atravessou dois anos de grande caos com o nariz de fora e estaria pronto a comandar mais um ano com muitas provas dadas. Com sabedoria, muita experiência, muita maturidade, muita cabeça fria.

Porquê?
Tantos predicados pesam menos que o medo de um “não” claro. E isso é fatal — para o cliente, para os próprios.

Penso nisto muitas vezes, culturalmente (financeiramente e mentalmente), estamos sempre com fome. 50 anos de Salazar não desaparecem em 50 anos de liberdade. Temos medo que não chegue para amanhã, temos medo de partilhar com o vizinho do lado, temos medo de gastar para ganhar, temos medo que o outro cresça mais do que nós ou saiba o quanto estamos nós a crescer. Temos fome.

E por termos fome, comemos tudo o que nos põem à frente e de uma só vez. Não vá o diabo tecê-las..

Em vez de dizermos basta, não é saudável, e recomendarmos um parceiro (ou dois ou três), temos medo de dizer que não ao cliente. Encaixamos mais um e mais outro, já a rebentar, com o nosso habitual optimismo desenrascado, cabe sempre mais um (mas no fim são mais catorze…), tudo se fará.

E faz, mas… qual é o real ganho? E acima de tudo, qual é o real custo?
Está à vista e manifestamente publicado… um cansaço tremendo, com um terço da estação ainda por virar, execução que perde alma, qualidade e detalhe porque é inevitável, uma sorte porque o cliente está enamorado e acredita que é único e especial, e um nível de criatividade que definha a cada fim-de-semana. E estamos mais velhos, mais cansados, menos inspirados, porque como disse tantas vezes, trabalhar no sector dos casamentos é uma ultra-maratona, não podemos entrar na corrida a achar que é um sprint.

Estamos fartinhos de saber de tudo isto… então, porque é que vimos para as redes sociais com grandes manifestos sobre o excesso de trabalho e os sacrifícios da família, tudo factual, em boa verdade, mas da nossa total escolha, como um Calimero desolado?

A pergunta é óbvia — queremos mesmo isto?
É prerrogativa nossa dizer que sim e dizer que não, logo, a responsabilidade está do nosso lado e a consequência, e o seu preço, também. Não é o universo que nos está a afogar, somos mesmo nós que estamos a fazer escolhas menos sábias. Porque resistimos tanto a colocar um saudável “não” no nosso vocabulário? E repetimos o comportamento no ano seguinte, e no outro, e no outro?

É fome, real, ou é gula?

O trabalho criativo, que é uma grande componente das actividades profissionais do sector, precisa de ócio. O trabalho físico e mental, outra das componentes, precisa de descanso, também físico e mental.
Entregar trabalho bestial, com o seu respectivo preço justo e real, requer não só estas componentes, como também o foco dedicado, a inspiração fresca e a centelha de génio e identidade que nos distingue do colega do lado. E a vida pessoal (seja acompanhada ou a solo), também precisa de uma parcela nesta equação.

Abdicar deste equilíbrio saudável e frutuoso, tão duro de alcançar, por mais uns tostões (ou milhares)— vale a pena? É um meio para um fim, é estratégico?

Ou já nem sequer temos fome, mas…

É uma pergunta honesta.

3 tiered mossy strawberry dream wedding cake — Yip Studio

--

--

designer by training, content curator by calling, wedding expert by experience

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store
Susana Esteves Pinto

designer by training, content curator by calling, wedding expert by experience