A grande indigestão

Susana Esteves Pinto
4 min readSep 19, 2022

A temporada de 2022 está a passar o ponto mais alto de inflexão, Outubro porá o termo, para grande alívio colectivo.

Do meu posto de observadora atenta, acompanho o discurso que se tem feito ouvir bem alto esta estação— muito trabalho, sacrifício de equipas e família, múltiplos casamentos no mesmo dia, casamentos seguidos na mesma semana, grandes declarações públicas (?!) de “sangue, suor e lágrimas”, todo um sofrimento e desgaste acima da norma manifestado por floristas, wedding planners, fotógrafos, decoradores, designers de convites…

O que há de diferente este ano, para que este discurso seja tão transversal e tão sonoro?
Será a cauda do backlog pandémico ainda a somar? Serão as nuvens da crise económica e instabilidade a antecipar decisões e sonhos? Será o regresso às estatísticas pré-covid, de que já tínhamos perdido o ritmo? Haverá mais noivos e menos fornecedores?

Qualquer uma destas razões (ou a soma de todas) é real e possível, será necessário esperar pelo fim do ano para olhar para a clareza dos números, que já apontavam um crescimento veloz (ou regresso à normalidade) em 2019, a virar a meta dos 30 mil casamentos anuais, o intervalo onde temos navegado na última década, com a excepção, ainda que muito honrosa, dos 19 mil casamentos de 2020.

É interessante reflectir e analisar o acréscimo de trabalho — se é de facto real ou se está distribuído pelos mesmos, de onde vem, porque vem, é pontual, é uma tendência, há razões específicas que podemos abraçar e apontar a nosso favor para o futuro? É sem dúvida um assunto que merece que atenção estratégica e análise a seu tempo.

Mas é interessante também perceber as razões que levam a aceitar mais do que se pode entregar, nas suas melhores condições — o que está a ser expresso, ainda que de forma inconsciente, pelos próprios.

Nesta observação que faço, decidi chamar à época de 2022 o ano da grande indigestão, porque é a esse excesso que tenho assistido.

Surpreendentemente (para mim), é das equipas mais maduras e experientes que ecoam estas vozes. Não por quem está a começar, sabe pouco e é engolido por aquilo que não soube medir, mas por quem já estava bem implementado no mercado, atravessou dois anos de grande caos com o nariz de fora e estaria pronto a comandar mais um ano com muitas provas dadas. Com sabedoria, muita experiência, muita maturidade, muita cabeça fria.

Porquê?
Tantos predicados pesam menos que o medo de um “não” claro. E isso é fatal — para o cliente, para os próprios.

Penso nisto muitas vezes, culturalmente (financeiramente e mentalmente), estamos sempre com fome. 50 anos de Salazar não desaparecem em 50 anos de liberdade. Temos medo que não chegue para amanhã, temos medo de partilhar com o vizinho do lado, temos medo de gastar para ganhar, temos medo que o outro cresça mais do que nós ou saiba o quanto estamos nós a crescer. Temos fome.

E por termos fome, comemos tudo o que nos põem à frente e de uma só vez. Não vá o diabo tecê-las..

Em vez de dizermos basta, não é saudável, e recomendarmos um parceiro (ou dois ou três), temos medo de dizer que não ao cliente. Encaixamos mais um e mais outro, já a rebentar, com o nosso habitual optimismo desenrascado, cabe sempre mais um (mas no fim são mais catorze…), tudo se fará.

E faz, mas… qual é o real ganho? E acima de tudo, qual é o real custo?
Está à vista e manifestamente publicado… um cansaço tremendo, com um terço da estação ainda por virar, execução que perde alma, qualidade e detalhe porque é inevitável, uma sorte porque o cliente está enamorado e acredita que é único e especial, e um nível de criatividade que definha a cada fim-de-semana. E estamos mais velhos, mais cansados, menos inspirados, porque como disse tantas vezes, trabalhar no sector dos casamentos é uma ultra-maratona, não podemos entrar na corrida a achar que é um sprint.

Estamos fartinhos de saber de tudo isto… então, porque é que vimos para as redes sociais com grandes manifestos sobre o excesso de trabalho e os sacrifícios da família, tudo factual, em boa verdade, mas da nossa total escolha, como um Calimero desolado?

A pergunta é óbvia — queremos mesmo isto?
É prerrogativa nossa dizer que sim e dizer que não, logo, a responsabilidade está do nosso lado e a consequência, e o seu preço, também. Não é o universo que nos está a afogar, somos mesmo nós que estamos a fazer escolhas menos sábias. Porque resistimos tanto a colocar um saudável “não” no nosso vocabulário? E repetimos o comportamento no ano seguinte, e no outro, e no outro?

É fome, real, ou é gula?

O trabalho criativo, que é uma grande componente das actividades profissionais do sector, precisa de ócio. O trabalho físico e mental, outra das componentes, precisa de descanso, também físico e mental.
Entregar trabalho bestial, com o seu respectivo preço justo e real, requer não só estas componentes, como também o foco dedicado, a inspiração fresca e a centelha de génio e identidade que nos distingue do colega do lado. E a vida pessoal (seja acompanhada ou a solo), também precisa de uma parcela nesta equação.

Abdicar deste equilíbrio saudável e frutuoso, tão duro de alcançar, por mais uns tostões (ou milhares)— vale a pena? É um meio para um fim, é estratégico?

Ou já nem sequer temos fome, mas…

É uma pergunta honesta.

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Susana Esteves Pinto

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